sobre o projeto

Apresentação

Vera Casa Nova e Kaio Carmona

VOZES DE MINAS NA POESIA CONTEMPORÂNEA

A presente coletânea, organizada por Vera Casa Nova, Marcelo
Dolabela e Kaio Carmona, ainda que geográfica e cronologicamente
circunscrita, constitui uma oportuna amostragem
representativa.

De um lado, comprova a presença ativa da produção poética
brasileira: a poesia persiste e resiste. De outro, independentemente
de juízos avaliatórios, possibilitados pelos múltiplos
e vários enfoques da crítica especializada, abre-se a
algumas constatações, em termos do processo literário brasileiro
em que se insere.
Honrado pelo convite para apresentá-la, divido algumas
considerações com os leitores, a título de mobilização de
interesse, respeitado o enriquecedor dissenso construtivo,
com um convite a identificá-las nos poemas e a compartilhar
e ampliar leituras possibilitadas pela multissignificação
inerente aos textos de literatura.
A mostra faz-se, na maioria de poemas centrados em dimensões
confessionais, assumidos por um eu lírico diante
de si mesmo e de suas circunstâncias. Reflexões de caráter
existencial, lirismo amoroso de múltiplos matizes são temas
recorrentes. Nem falta forte carga de sensualidade e de erotismo.
A tônica é a superlativação da subjetividade.
Também presentifica-se em um número significativo de
composições a paisagem urbana e a vivência mineiras, como
destaque para Belo Horizonte e Ouro Preto. As cidades
emergem como pano de fundo mobilizador, como numa
comprovação do conhecido verso de Carlos Drummond de
Andrade: “Minas é dentro e fundo”.
Evidencia-se a valorização poética do cotidiano, tendência
inaugurada pelos poetas modernistas.
Pontuam ainda a seleção várias composições explicitadoras
de poéticas assumidas, autoexplicações individualizadas,
traço recorrente na poesia brasileira.
Destaca-se significativamente a produção feminina. Sem
preocupação, entretanto, com a afirmação assumida de identidade
cultural. Só eventualmente, a propósito, figuram textos
indicativos de preocupação social, de assunção de algum
compromisso de tal natureza. Não se configuram manifestações
de representações coletivas, frequentes nas décadas
finais do século passado.
Em termos formais, a maioria das composições apoia-se
em modelizações modernistas sedimentadas, numa evidência
de que a heresia de ontem converte-se frequentemente
na liturgia de amanhã. Em menor escala, integram a seleção
experiências de linhagem concretista, salvo juízos em contrário,
ainda indiciadoras de espaços de vanguarda.
Em resumo, configura-se a plena liberdade formal que envolve
desde poemas de forma fixa, como sonetos, passa pelo
verso livre, por experiências verbivocovisuais e culmina na
ruptura dos limites entre prosa e verso.
Assim caracterizadas, as composições dão sequência a procedimentos
marcantes da poesia nacional desde as décadas
finais de 1970, que ganham força a partir da década seguinte.
A partir desses momentos históricos, a produção poética
no Brasil, antes pontuada pela emergência de grupos e movimentos,
em torno de tomadas de posição explicitadas em
manifestos, dispersa-se, num universo de individualidades.
E muito verso publicou-se desde então.
Claro está que os poemas selecionados se acrescentam de
novos matizes, caracterizadores da singularização apontada,
notadamente no espaço da realidade poetizada. Deixo
ao leitor a tarefa de identificá-los, para ampliar ainda mais
o prazer da leitura.
Por outro lado, alguns poemas se revestem de hermetismo
desafiador.
Presença forte é ainda o diálogo intertextual com a poesia
de Carlos Drummond de Andrade e, eventualmente, a produção
de Manuel Bandeira, e a prosa de Guimarães Rosa.
Por essas e por outras características a coletânea dá continuidade
ao diálogo mobilizador com a poética do Modernismo,
em destaque o verso livre, e experiências na fronteira
dos limites entre prosa e verso, o centramento em preocupações
existenciais e visões de mundo.
Faz-se notar também, em menor volume, a revitalização do
verso tradicional, de ritmo apoiado na sílaba como unidade,
e na rima. Também em escala menor, envolve ecos das vanguardas
dos anos de 1950/1970. Alguns poucos configuram
experimentalismos.
Em síntese, os textos reunidos em Entrelinhas, entremontes:
versos contemporâneos mineiros evidenciam, sem esgotar
as tendências configuradoras, a continuidade de aspectos
significativos da dispersão assinalada.
Trata-se de um livro que permite ao leitor, ao lado de desfrutar
o prazer do texto, travar contato com a arte poética
em processo entre as montanhas de Minas e o espaço do
silêncio do texto literário, lugar em que melhor se diz. E,
sobretudo, constatar que, nas terras mineiras, a poesia vive.


Vale a leitura.

Domicio Proença Filho